quarta-feira, dezembro 27, 2006

Rodrigo Vianna: "A Globo não foi leal com o público"

O assunto do momento nas redações brasileiras é a carta do ex-repórter especial da TV Globo, Rodrigo Vianna (foto), demitido no último dia 19. Ao sair, Vianna escreveu uma carta e "chutou o pau da barraca" ao denunciar que o jornalismo da emissora foi parcial na cobertura das últimas eleições, com o intuito de prejudicar o PT.

Há algumas questões a serem colocadas e que ficam explítitas no caso:

Vianna escreveu a carta no calor da emoção e suas duras críticas sofreram a influência de um sentimento de rancor de alguém que foi demitido de uma das maiores televisões do mundo.

Vianna ignorou a agenda midiática que direcionou os fatos para uma crítica pesada ao PT, após as denúncias sobre o mensalão. Os valores-notícias das denúncias que envolviam os petistas eram mais fortes e por isso ocupavam mais espaço em TODOS os veículos ditos sérios. Basta ao ex-repórter ler um pouco sobre as teorias da profissão que exerce para entender melhor esse processo.

O agendamento de notícias certamente influencia a opinião do telespectador. Questiono até que ponto a Globo foi mesmo feliz em sua "estratégia mirabolante" de destruir os "lulistas", já que o presidente foi facilmente reeleito e, ao final do seu primeiro mandato, foi avaliado como o melhor presidente da história recente do Brasil.

Vianna devia ir mais a fundo em sua análise e entender que a maioria de nós, jornalistas, não votamos no Lula - fato comprovado por pesquisa. Nós, arautos da moralidade, adoramos ver o Alckmin indo ao segundo turno após divulgação de imagens do dinheiro usado para comprar o dossiê contra os Tucanos.

A atitude contra ou pró está dentro das redações, mas não apenas por determinação das chefias. Ela faz parte do espírito do jornalista, que inevitavelmente terá sua opinião e influenciará sua reportagem, mesmo que acredite estar fazendo justamente o contrário.

É feio cuspir no prato que comeu durante tantos anos. Parece choro de perdedor. É covarde e anti-ético.

Por mais que o ex-repórter tenha razão, ele está errado, pois veio gritar somente após sete anos de trabalho numa rede e no momento em que foi preterido.

Veja abaixo um trecho da carta de Rodrigo Vianna:

"Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar - ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.

Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: "você não vai agüentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros". Agüentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos - sim - bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.

Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: "olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás".
Isso não era só um discurso.

Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política - da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.

Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu.Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem!

Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: "o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto."


Leia aqui a carta na íntegra.


A RESPOSTA DA GLOBO

A Globo respondeu às acusações de Rodrigo Vianna por meio de uma carta escrita pelo diretor de redação da emissora em São Paulo, Luiz Claudio Latgé. A carta diz o seguinte:

"O repórter Rodrigo Vianna foi informado hoje de que o contrato dele, que termina dia 31 de janeiro, não será renovado. A comunicação com um mês de antecedência é uma exigência do contrato.

Está claro que o Rodrigo preparou-se para este momento, a ponto de ter uma longa mensagem pronta a ser divulgada. Os motivos da não renovação nada têm a ver com a cobertura das eleições, como ele especula. Em respeito a ele, jamais pretendi torná-los públicos nem farei isso agora. Rodrigo, porém, nem os quis conhecer.

Ao ouvir de mim que o contrato não seria renovado, saiu intempestivamente de minha sala e enviou um e-mail para a Redação.Rodrigo deve ter pensado que poderia encontrar no ataque aos colegas e na mentira uma saída nobre. Com essa atitude, ele pareceu querer se defender de acusações que jamais passaram pela nossa cabeça.

A pergunta que fica é a seguinte: se a integridade dele é tão elevada, como ele supõe, por que não se demitiu anteriormente, convivendo durante meses com uma situação que ele classifica de insuportável? Não o fez porque tinha como certo que seu contrato seria renovado. Para que não perdesse o emprego por motivos menos nobres, preferiu repetir, quase literalmente, acusações que jornalistas mal-intencionados já nos tinham feito.

Talvez tenha pensado que, assim, sairia como mártir. Deu a entender que partiu dele a iniciativa de sair, quando na verdade todos os sinais que emitia eram de que queria ficar. Lamento que tenha perdido o equilíbrio e tentado transformar um assunto funcional interno numa questão política, que jamais existiu. Sinto não ter percebido antes que, intuindo que poderia ser desligado por outros motivos, construa essa "justificativa política", sem base na realidade.

Foi um comportamento indigno. E não é justo com o trabalho de todos deixar sem resposta as críticas que ele nos faz.Fizemos uma cobertura eleitoral intensa e democrática, com a abertura de espaços em todos os nossos telejornais para todos os partidos, que mais de uma vez reconheceram nossa isenção e a importância do serviço prestado ao público.

Não inventamos uma pilha de dinheiro na mesa da Polícia Federal. Já saímos a público antes para refutar estas teorias conspiratórias produzidas por grupos políticos e jornalistas descompromissados com a verdade.

Nosso noticiário em nada foi diferente dos demais veículos de imprensa de importância. De setembro a outubro, demos 20 reportagens sobre Abel Pereira e Barjas Negri. Todos os assuntos foram investigados, sim, e noticiados segundo o seu grau de relevância. Tudo o que fizemos foi exposto ao juízo do público em nossas edições diárias. Nossa isenção jornalística foi elogiada em artigos até por veículos de grupos concorrentes.

Não há nada em nossa conduta ou em nossas decisões editoriais que tenha nos afastado do bom jornalismo e muito menos que nos envergonhe.A confusão de idéias que o Rodrigo Vianna expressa deve ter razões pessoais e compromissos que não nos cabe julgar. Peço desculpas aos colegas pelos ataques e ofensas por ele dirigidos. "

Um comentário:

The human who sold the world disse...

Hummmmm... será q ele arruma outro emprego depois disso?